A cultura no Brasil sempre foi acessível principalmente a uma minoria privilegiada. Isto remonta aos tempos do Brasil Imperial, em que a cultura estava restrita a filhos da burguesia que detinha o poder econômico, e que, portanto, eram os únicos a terem condições de frequentar os famosos colégios europeus.
Voltavam ao Brasil após terem finalizado seus estudos, e passavam a perceber as diferenças de realidades dos dois mundos. Aqui o que vigorava na época era o trabalho braçal, e não havia lugar para a cultura, o que acarretava uma má compreensão do idioma.
Os jesuítas foram os primeiros a revelar preocupação em instruir o povo. Para tanto, promoveram a fundação de vários colégios. Temos hoje no Brasil um grande número de instituições públicas que levam a cultura às grandes massas. Porém seu número, principalmente das universidades, é insuficiente para atender uma demanda cada vez maior, e mesmo aqueles que nela conseguem entrar ou nela permanecer, continuam sendo em sua grande maioria privilegiados de uma classe social de maior poder aquisitivo. A grande maioria não consegue um nível sequer de subsistência quanto mais de estudo.
Não é somente a cultura adquirida através de escolarização, apesar do enfoque, que é de difícil acesso. A simples cultura diversificada, adquirida por meio de várias fontes, é também confinada às classes de poder aquisitivo maior. O que resta à grande massa é uma massificação cultural, sem preocupações com ordem de valores, sentido crítico e julgamento. A cultura lhes chega através de medíocres programas de televisão e de baixas literaturas. Não é uma verdadeira cultura o que as atinge, mas sim o sopro cada vez mais forte de uma marginalização cultural.
Não podemos, contudo, nos esquecer que a população brasileira é formada por diversificado número de povos e que isto contribui grandemente para a corrupção do idioma português. Não é de admirar que a redação, como parte obrigatória em importantes exames no país, exerça grande repercussão psicológica nos estudantes. A primeira reação é a de verdadeiro pânico e podemos, se fizermos uma análise mais minuciosa, dizer que com justa causa.
Justa, porque o estudante faz todo o curso básico e secundário detido em esquemas decorativos. Em praticamente nenhum momento durante estes anos todos sente a necessidade de procurar uma maior culturalização, pois não há incentivos para tal. O que é exigido por parte dos professores é a leitura repetitiva de uma "cartilha". O estudante, não parte para um aprofundamento dos conhecimentos básicos adquiridos na escola. Atem-se, simplesmente, ao que lhe é lançado de forma já deglutida pelos professores. Salvo alguns poucos casos, em momento algum sente necessidade de ele próprio analisar e tentar compreender o que lê, e por que o faria? Tudo o que precisa saber para executar uma boa prova chega-lhe aos ouvidos analisado e interpretado.
Ao concluir o segundo grau, ingressa em cursos preparatórios, onde o ciclo se repete de forma mais acentuada. O processo de decoração acentua-se de maneira catastrófica. O estudante converte-se em uma máquina de marcar X. Em raros momentos utiliza-se da palavra oral ou escrita. Não há tempo para leitura de espécie alguma, leituras estas que poderiam desenvolver-lhe o intelecto. O tempo tem que ser "aproveitado" para memorização das fórmulas e tantas outras regras, etc.
Este círculo fechado de ensino empurra-o para a margem dos fatores sociais e culturais, e esta marginalização cultural leva-o a buscar novas formas de expressão que denotam falta de conhecimento. Passa então ao uso abusivo de gírias, e outros símbolos como meio de comunicação. Com a tecnologia atual dos computadores e dos novos smartphones e suas possibilidades de comunicação via redes sociais, temos percebido novos símbolos gráficos em substituição ao idioma falado. Estes maneirismos de comunicação indicam muito mais do que simples processo de não culturalização, revelam um estágio interior de insatisfações, de insegurança e ansiedade. E, a forma encontrada de manifestá-los é através da criação imaginativa e fantasiosa de novos simbolos comunicativos que tendem a atingir a massa.
Ao sair deste circulo vicioso, com a entrada nos cursos superiores, o estudante depara-se com uma nova realidade marcada pela defasagem entre os cursos secundários e o ensino superior. Esta busca de conhecimentos torna-se uma necessidade cada vez mais crescente. O estudante depara-se então, com a difícil tarefa de passar a interpretar o que lê. Não há mais quem o faça por ele.
As provas não mais medem a capacidade de memorização, mas sim conhecimentos profundos e abrangentes que avaliam sua capacidade crítica e discriminativa. No momento em que há exigência de por no papel seus conhecimentos, mesmo que estes existam em grande quantidade e lhes venham facilmente à mente, há dificuldade de expressa-los de forma lógica, inteligível e coerente.
Nesta fase do avanço intelectual o estudante percebe que é apenas uma peça da integração social e nota que sua força é imprescindível a tal processo, para talvez, enriquecer outros.
Psicologia Clínica
Cruzeiro
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