quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Adultização de Crianças, Adolescentes e Comprometimentos Psicológicos Futuros

Um assunto tem dominado a atenção do país em matérias recentes nos telejornais, sites de mídia jornalística, redes sociais, e chegando ao Congresso Nacional: A Adultização de Crianças e Adolescentes. O conteúdo tomou amplitude a partir de uma recente investigação do youtuber Felca, que demonstrou como pedófilos estão operando abertamente nas redes sociais principalmente Instagram e Youtube. Não é de hoje a discussão sobre o tema. Porém, a partir do alcance da denúncia de Felca a pressão popular sobre o Congresso Nacional, responsável pela criação da legislação em nosso país, se tornou urgente.

 

Um projeto de lei existente sobre o tema, o ECA Digital, já aprovado no Senado estava estacionado na Câmara. Com a recente pressão popular, o plenário da Câmara dos Deputados aprovou na última quarta-feira, 20 de agosto, em uma votação simbólica, o Projeto de Lei (PL) 2628/2022, que estabelece regras para proteção e prevenção de crimes contra crianças e adolescentes em ambientes digitais. Aprovado no Senado em 27 de agosto também em votação simbólica e aguarda Sanção Presidencial.

 

Segundo a investigação de Felca, há diversos códigos na internet para que pedófilos encontrem uns aos outros e troquem mensagens com imagens de crianças. E isso pode acontecer com qualquer um, inclusive com aquela foto inocente que a mãe ou avó poste de sua netinha de biquíni na praia ou piscina. A justificativa de se criar regras para as Big Techs, gigantes empresas de tecnologia, como Google, Amazon, Apple, Meta, etc. se dá pelo fato de apesar de existirem ferramentas que podem diminuir esse tipo de crime, essas empresas não as colocam em prática, pelo simples fator econômico. Pois, manter as pessoas online por mais tempo gera muito lucro, assim como também gera ganhos aos pais que inadvertidamente e talvez por uma busca por fonte de renda, expõem os filhos nas redes sociais como modelos de moda, etc., buscando a sonhada monetização. 

 

Entretanto, uma outra realidade vai além dessa exposição midiática. Quais os comprometimentos psicológicos surgirão nesses pequenos indivíduos ao longo de suas vidas após essas exposições não autorizadas por eles, até porque não reúnem amadurecimento cognitivo para uma compreensão real de tudo o que pode advir disso. 

 

Teoricamente a adultização de crianças e adolescentes acontece quando meninas e meninos são tratados como adultos bem antes do tempo. E isso pode ser através de cobranças sociais, familiares ou culturais, podendo acontecer através de exigência de responsabilidades incompatíveis com a idade, ao expo-los precocemente à sexualidade, ao impor padrões estéticos e ou comportamentais  de adultos, e até quando assumem por necessidade, papéis parentais como cuidar de irmãos mais novos e da casa durante a ausência dos pais durante o dia.

Esse tipo de situação pode gerar diferentes comprometimentos psicológicos futuros, pois vão interferir diretamente no desenvolvimento emocional e identitário desses indivíduos. 

Vamos pensar em alguns desses possíveis comprometimentos:

     Baixa Autoestima e Insegurança:  Ao se ver comparada a padrões adultos, a criança pode sentir que nunca estará à altura de satisfazer tal padrão. O que pode levar a uma autocrítica excessiva, a um sentimento de inadequação ao meio e dificuldade de autoaceitação.

      Dificuldade de Identidade: A necessidade por “crescer” dificulta e até chega a impedir que a criança explore fases naturais de seu desenvolvimento como indivíduo. Já na vida adulta, isso pode gerar fragilidade de identidade, uma dificuldade para entender seus próprios desejos e até uma tendência a ser o que os outros esperam e não o que ela realmente é e deseja.

    Problemas de relacionamento: A crianças adultizadas costumam pular etapas de socialização particulares à infância e adolescência. Dessa forma podem chegar a relações afetivas desequilibradas, numa busca por aprovação excessiva ou, o oposto, um distanciamento emocional.

     Sexualidade Precoce: uma criança ou adolescente exposta ou incentivada a condutas sexuais antes do tempo adequado pode criar dificuldades para lidar com a própria sexualidade futura, e gerar uma vulnerabilidade a relacionamentos abusivos e alto risco de traumas. 

             

     Responsabilidade invertida, a parentificação: Crianças que assumem funções de adultos dentro da família, podem sofrer impacto direto em sua capacidade de se cuidar, pois sempre hão de priorizar o outro. Quando na vida adulta, podem apresentar dificuldade para estabelecer limites, demonstrar sentimentos de culpa por cuidar de si mesmo além de tenderem ao esgotamento físico e psicológico.


Por último mas não menos importante, a ansiedade e estresse precoce: As exigências por maturidade podem criar uma sobrecarga psicológica. A criança acaba internalizando a idéia de que precisa dar conta de tudo. E isso pode se transformar em transtornos de ansiedade, e profundas crises de estresse em sua vida adulta.

 

Em resumo, para além dos crimes contra crianças e adolescentes  e toda a preocupação e importância que se deve dar a isso, vale muito a reflexão sobre como a adultização pode vir a comprometer o direito ao tempo da infância e da adolescência, e como  as conseqüências psicológicas futuras quando da vida adulta desses indivíduos pode ser ainda mais prejudicial a uma vida saudável e feliz.

 

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