A depressão tem acompanhado o homem através de sua história, é uma experiência universal. A depressão patológica, aquele sentimento de desespero avassalador muitas vezes sem causa aparente, é distinguível da tristeza comum por sua intensidade, duração e irracionalidade evidente e por seus efeitos nas vidas dos indivíduos acometidos por ela. No mundo contemporâneo, a depressão tem sido observada com maior intensidade e frequência, pois as pessoas tem sofrido todo tipo de pressão, seja por busca de resultados em uma sociedade extremamente competitiva, seja por uma desigualdade de condições para se atingir tais resultados, e até mesmo pelo envelhecimento maior da população em resposta aos avanços da medicina, por exemplo.
Alguns estudos observam que aproximadamente cinco entre cem adultos se tornam significativamente deprimidos em alguma época de suas vidas e a classificação padrão da depressão é frequentemente insatisfatória. Cada psicólogo e cada psiquiatra tem uma compreensão própria dos termos e usam suas próprias definições.
A depressão é um estado de humor passível de acometer pessoas de faixas etárias mais baixas, entretanto, é característico da velhice, uma vez que a sociedade ocidental não se preparou adequadamente para lidar com uma velhice prolongada, e em criar opções de atividades e apoio às pessoas que com a idade, se tornam menos produtivas. Na Roma antiga, Cícero já descrevia os velhos como "confusos, irritadiços, morosos e difíceis de se contentar", e este conceito ainda costuma estar presente em nossa sociedade. Nos indivíduos de meia-idade, a depressão costuma surgir após a aposentadoria, quando a pessoa passa a ter uma queda em sua atividade funcional produtiva, dificuldades de encontrar outras possibilidades de atividades de trabalho e lazer, a vivência de perdas ou mudanças súbitas nas circunstâncias de vida com a qual estava acostumado a lidar. Apesar disto, muitas vezes, a sintomatologia se mostra mais acentuada do que seria de se esperar em relação ao fator desencadeante. Isto se verifica quando percebemos que mesmo ao cessar a causa que levou o paciente a se sentir deprimido, não se percebe um breve retorno ao estado anteriormente vivido, como se poderia esperar. Portanto, a solidão, a insegurança, as vivências negativas no cotidiano familiar e outras situações mais, seriam as causas precipitantes ou contribuintes, mas não as específicas e determinantes.
Também chamada de reação psicótica involutiva, a melancolia é um distúrbio de comportamento e depressão comun de ser observada em individuos de meia-idade, e pode surgir exatamente durante o período involutivo destes. A senectude, é o período compreendido entre os 40 e 55 anos, e na mulheres se associa a alterações endócrinas específicas que se constituem na menopausa. Nessas alterações endócrinas as glândulas lançam seus hormônios diretamente na corrente sanguínea possibilitando uma rápida distribuição pelo corpo todo, afetando desta maneira, diferentes órgãos e tecidos. Nos homens, o processo é mais lento e traiçoeiro, pois à medida em que este envelhece cai a produção do hormônio sexual masculino, a testosterona. Porém, mesmo níveis mais baixos, os valores ainda podem ser considerados dentro de uma faixa de normalidade. Mesmo com algumas mudanças físicas e psicológicas atuando por conta da queda desse hormônio, nem todos irão apresentar sintomas característicos da andropausa, isso apenas acontece com indivíduos que têm uma diminuição mais expressiva dos níveis hormonais e, ainda assim, as manifestações são mais sutis e menos aparentes do que nas mulheres.
Esta costuma ser também uma época de vida, para as mulheres, frequentemente relacionada a mudanças características no status familiar e nas relações sócio-culturais. Para a mulher este período marca o estágio em que os filhos, aos quais ela devotou grande parte de seu tempo, tornam-se independentes e começam a deixar o lar, lhes tirando o controle sobre a criação e o cuidado para com os mesmos. Simultaneamente, as alterações da fisiologia endócrina levam à interrupção da ovulação, da menstruação, da capacidade reprodutiva e a outras mudanças corporais. Para muitas mulheres este é um período de crise, sentido como um marco do envelhecimento, e a isto soma-se toda a pressão exercida pela sociedade moderna, com suas cobranças por resultados, disputas por melhores colocações, por mais conhecimento, pela luta por igualdades de direitos, etc.
É neste período que muitas pessoas fazem um balanço de suas vidas e após vinte ou mais anos da vida adulta, questionam seus papéis e objetivos e descobrem que muitas de suas ambições não foram e provavelmente não serão realizadas. Significativa parte das pessoas desta faixa etária já atingiu o máximo do seu potencial de crescimento pessoal e profissional, e embora para algumas isto seja o bastante e a perspectiva de continuar na mesma linha seja atraente, para muitas outras esta é uma experiência extremamente frustrante. Torna-se difícil aceitar o fato de que suas ambições longamente acalentadas não poderão ser atingidas, ou se tornarão muito difíceis de serem alcançadas plenamente, e acabam por se revoltar contra sua situação, culpando a si mesmos ou aos outros pelas limitações e desapontamentos da vida.
Embora muitos pacientes nesta faixa de idade apresentem este quadro e lhe atribuam seus problemas, devemos observar com cuidado a consideração de uma significância causal específica às alterações endócrinas ou às respostas emocionais à nova situação, pois o número de pessoas que passam pelas mesmas dificuldades e não se tornam psiquiatricamente doentes é bem maior do que o número de pacientes nesta condição emocional em desequilíbrio. Envelhecer não implica ter uma vida infeliz e sem estimulo, mas em decorrência de uma falta de política pública que contemple as questões relacionadas a terceira idade, podemos observar que estas vivências da meia-idade fornecem condições para as predisposições subjacentes se manifestarem. O indivíduo suscetível à derpessão mas que era anteriormente sustentado pela ambição, pelo otimismo, pelos prazeres e exigências emocionais do contato com a família e por uma boa saúde, sente-se agora ameaçado pela solidão, pela falta de atividades produtivas e de sentido de vida, pelas modificações em seu estado físico, e assim termina por desenvolver uma enfermidade emocional-psicológica.
O penoso reconhecimento da diminuição do trabalho físico e mental se soma a uma angústia permanente pela segurança material e saúde futuras. É possível que a suscetibilidade à melancolia seja resultado de uma predisposição genética ou de um determinado tipo de personalidade. Há algumas evidências de que fatores hereditários predisponham o indivíduo ao desenvolvimento da melancolia involutiva, por exemplo, estudos demonstram que se um, entre gêmeos idênticos, tem uma enfermidade psiquiátrica involutiva, há 60% de probabilidade de que o segundo também desenvolva a mesma psicopatologia, já o percentual é muito menor em gêmeos não idênticos.
Os profissionais da área da psiquiatria, psicanálese e psicologia, cada qual com sua abordagem, podem colaborar efetivamente para que as pessoas que atravessam tais dificuldades tenham uma melhor qualidade de vida, se adaptando com mais harmonia às mudanças, e recuperando a motivação e o interesse pela vida e pelo que ela pode oferecer. Uma boa empatia entre paciente e profissional é fundamental neste processo. Para aquelas pessoas que não sofrem da doença depressiva, conseguir ter uma visão otimista do futuro pode ser o caminho para estabelecer um novo plano de vida e com isto encontrar motivação para seguir de forma mais feliz, pois assim como o mundo moderno pressiona pela busca de resultados, também oferece uma série de facilidades tecnológicas, de comunicação e aprendizado que podem ser de grande valia nesta busca de uma nova e melhor condição de viver.
Psicologia Clínica
Cruzeiro
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