quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Organizado ou desorganizado?

Organização versus desorganização: trata-se de uma controvérsia tão antiga quanto o mundo, e as duas partes dificilmente se entendem. O que é a ordem? A definição está no dicionário: "a conveniente disposição dos meios para obter os fins". Logicamente que as referências podem variar de uma pessoa para outra. Um exemplo bem elucidativo é a pessoa que só encontra aquilo que procura se ninguém mexer na montanha de papéis espalhados sobre sua mesa de trabalho. É um sistema pessoal, uma "ordem" própria que os outros definem como "bagunça", e que satisfaz plenamente a pessoa. Esse exemplo é válido para todos os desorganizados. Sua desorganização não é falsa; na realidade eles querem impor a si mesmos uma ordem, só que a sua maneira. É claro que para os desorganizados cada coisa tem o seu lugar. Contudo, eles colocam essa "alguma coisa" onde lhes der vontade. A diferença entre a pessoa organizada e a desorganizada é que a primeira sabe com exatidão como ocupar o espaço, enquanto a outra improvisa.

Essa falta de improvisação por parte dos organizados, essa cega obediência que eles mesmos se impõem perante certas regras e que exigem dos outros a mesma posição, lhes dão um ar de pessoa autoritária, um tanto maníaca e tirana. O organizado considera a bagunça uma verdadeira agressão para si, já que transforma segundo sua visão, o mundo num caos completo, enquanto o desorganizado diz que não perde seu tempo empilhando roupas e coisas, preferindo atividades mais criativas. Afinal, são as pessoas que lhe interessam e não as coisas; o organizado retruca dizendo que a ordem economiza seu tempo e dinheiro tornando-o mais racional, e organizando as coisas pode dedicar-se às pessoas com mais eficiência. A desordem tem a seu favor certa atração ligada ao binômio "gênio e desregramento", já a ordem é quase sempre associada à idéia de rigidez e falta de imaginação. Hoje em dia essa desconfiança pela ordem adquire um papel ainda mais marcante e profundo, enquanto a desordem aparece como sendo um "valor" em plena expansão, já que vivemos numa época mais livre, onde todos os valores são questionados com mais intensidade.

Algumas conclusões da Psicanálise são taxativas em condenar a ordem. Afirmam muitos dos psicanalistas que em certos casos a ordem pode ser o resultado de nossas angústias, isto é, uma reação para compensar alguns distúrbios da personalidade. Isso tudo nos levaria de volta à primeira infância, pela qual todos passamos, e se esta passagem se dá através de sistemas autoritários e com culpabilidade, pode se tornar uma verdadeira fábrica de maníacos da ordem. Portanto, aqueles indivíduos que ficam histéricos quando a casa não brilha como um espelho, devem saber que estão simplesmente respondendo às antigas ordens de manter-se limpos.  Desta maneira, quem poderia se orgulhar de qualidades que são simplesmente o reverso da repressão do inconsciente? 

É importante lembrar que pessoas organizadas nem sempre são inofensivas. Um conhecido assassino de mulheres anotava cuidadosamente numa agenda o nome de suas vítimas ao lado das despesas de deslocamentos necessários para chegar ao local do crime. Isso sem falarmos dos  apavorantes exemplos em nossa história recente,  com a tremenda eficiência da ordem apresentada a partir de depoimentos que relatam uma perfeita organização dos responsáveis pelos campos de extermínio nazistas, para obter maior "rendimento" possível das câmaras de gás e dos fornos crematórios.

Também muito discutível é outro tipo de ordem: a ordem social imposta pela força, pela violência. Às vezes a sociedade assume comportamento patológico, não diferente daquele dos maníacos da ordem. Pretende que tudo, não apenas as coisas mas também as idéias e as pessoas tenham um lugar rigorosamente marcado e que dali não se movam. É bem verdade que pessoas muito rígidas são as mais propensas a certos tipos de psicoses, justamente pelo fato de se afastarem pouco ou quase nada do que organizaram anteriormente. É assim que nascem as segregações raciais e as diversas discriminações, os privilégios, os bairros residenciais de etnias, os "guetos", etc. E a grande desculpa para tal: "É preciso manter a ordem", dizem as autoridades públicas. Mas podemos perguntar, será que essa não é quase sempre a fonte de arbitrariedades e de injustiças? Tantas injustiças com as quais nos deparamos diariamente, e talvez justamente por isso já não nos importamos com elas. Discriminações, segregações, tudo em nome da ordem que deve, a todo custo, vigorar. Mas há o outro lado da moeda: será que as pessoas que tem tendência a ser organizadas devem desconfiar desta sua propensão pelos simples fato de existirem alguns reversos negativos? Desejar ver uma cama perfeitamente arrumada significa talvez cultivar discutíveis tendências repressivas e reacionárias? E, ao contrário, o fato de viver o dia-a-dia sem programas determinados, comporta automaticamente sentir-se irresistivelmente atraído a cada impulso revolucionário?

Bastante comum é a existência de pessoas que vivem uma vida pessoal incoerente e desorganizada, mas que no plano das idéias se revelam pessoas organizadas, quase fanáticas. Há também os genuínos cultivadores de idéias avançadas que levam uma vida pessoal desorganizada, e essa atitude identifica-se com a recusa da ordem constituída. É lógico que isso não é regra: existem muitos exemplos de pessoas muito organizadas em todos os setores da vida.

Num casal, onde um é organizado e o outro desorganizado, essa "incompatibilidade" gera conflitos, além do que se possa imaginar. Viver na confusão quando se ama a ordem é um grande desafio. Forçar o outro a ser muito organizado, significa perturbar sua relação com as coisas, significa reprimi-lo dentro de um território que é seu, e não dos outros. 

Normalmente, na estrutura familiar, a mulher tem sido colocada como a representante maníaca da ordem: por que será? Evidentemente porque a casa costuma ser o seu domínio, ali ela costuma deter a maior parte das decisões, e o que os demais que residem ali podem fazer? Submeter-se ou se revoltar contra tal posição. O mais interessante, seria que cada um da família possa ter seu "território" a fim de que organize ou desorganize um cantinho a seu gosto. É uma ótima solução para se "fechar a porta", quando se quer, sobre a desorganização do outro. Uma coisa se apresenta bem clara,  organização ou desorganização contrariadas tendem a dificultar uma convivência em comum, e para que isto seja tolerável, em nenhum dos casos deve-se impor mais do que é possível suportar.

E aí nos deparamos com a fatídica pergunta: Será que é melhor ser organizado ou desorganizado? Por inúmeras vezes, ouviremos alguém afirmar: Os desorganizados são mais livres, menos tiranos e, por sua vez, menos escravos de regras rígidas, já a ordem, por sua vez, nos torna um pouco prisioneiros. O indivíduo organizado, geralmente não gosta nem do inesperado nem da improvisação. Se alguém aparecer na casa deste sem aviso prévio, a acolhida tenderá a ser desagradável,  já o desorganizado, que só para começar costuma estar desligado em relação às horas, será muito mais disponível para qualquer acontecimento inesperado.

Todavia, essa considerada liberdade, frequentemente causa prejuízos aos outros e a comunidade. Peguemos um simples exemplo em uma grande família: quando uma coisa ou objeto pertence a todos, deve-se coloca-la  no lugar convencionado. Todos devem encontrar a pasta de dentes no lugar mais adequado, ou seja, o banheiro, e não em outros lugares quaisquer da casa. Se algo simples assim já traria confusão aos componentes desta família, imagine  numa estrutura social ainda maior e mais complexa.

Cada sociedade precisa de um mínimo de convenções comuns sem as quais não se pode viver. O que se deveria pensar de uma sociedade onde os trens não partem no horário, ou onde não teríamos hora pré-estabelecida para o início das aulas? Quanto a famosa criatividade da desorganização, ela pode existir nos trabalhos que requerem liberdade de imaginação. Entretanto, quando precisamos administrar a vida do dia-a-dia, o que é mais eficaz, a organização ou a desorganização? É sabido que tendo alguma programação dos seus dias, pode-se encontrar tempo para quase tudo. Isto é válido para dos donos de casa, seus empregados, os profissionais de qualquer categoria ou qualquer pessoa que tenha uma atividade social.

Qualquer um deveria ser livre de viver segundo a própria natureza, desde que o resultado organizado ou desorganizado de sua forma de ser e agir esteja dentro daquilo que a comunidade está disposta a suportar. Em síntese, cada um deveria procurar agir com respeito em relação aos outros, sejam eles organizados ou desorganizados. 

Psicologia Clínica
Cruzeiro
Contato: (31) 984093040
















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