Organização versus
desorganização: trata-se de uma controvérsia tão antiga quanto o mundo, e as
duas partes dificilmente se entendem. O que é a ordem? A definição está no
dicionário: "a conveniente disposição dos meios para obter os fins".
Logicamente que as referências podem variar de uma pessoa para outra. Um
exemplo bem elucidativo é a pessoa que só encontra aquilo que procura se
ninguém mexer na montanha de papéis espalhados sobre sua mesa de trabalho. É um
sistema pessoal, uma "ordem" própria que os outros definem como
"bagunça", e que satisfaz plenamente a pessoa. Esse exemplo é válido
para todos os desorganizados. Sua desorganização não é falsa; na realidade eles
querem impor a si mesmos uma ordem, só que a sua maneira. É claro que para os
desorganizados cada coisa tem o seu lugar. Contudo, eles colocam essa
"alguma coisa" onde lhes der vontade. A diferença entre a pessoa organizada e a desorganizada é que a primeira
sabe com exatidão como ocupar o espaço, enquanto a outra improvisa.
Essa falta de improvisação por
parte dos organizados, essa cega obediência que eles mesmos se impõem perante
certas regras e que exigem dos outros a mesma posição, lhes dão um ar de pessoa
autoritária, um tanto maníaca e tirana. O organizado considera a bagunça uma
verdadeira agressão para si, já que transforma segundo sua visão, o mundo num
caos completo, enquanto o desorganizado diz que não perde seu tempo empilhando
roupas e coisas, preferindo atividades mais criativas. Afinal, são as pessoas
que lhe interessam e não as coisas; o organizado retruca dizendo que a ordem
economiza seu tempo e dinheiro tornando-o mais racional, e organizando as
coisas pode dedicar-se às pessoas com mais eficiência. A desordem tem a seu
favor certa atração ligada ao binômio "gênio e desregramento", já a
ordem é quase sempre associada à idéia de rigidez e falta de imaginação. Hoje em dia essa desconfiança
pela ordem adquire um papel ainda mais marcante e profundo, enquanto a desordem
aparece como sendo um "valor" em plena expansão, já que vivemos numa
época mais livre, onde todos os valores são questionados com mais intensidade.
Algumas conclusões da Psicanálise
são taxativas em condenar a ordem. Afirmam muitos dos psicanalistas que em
certos casos a ordem pode ser o resultado de nossas angústias, isto é, uma
reação para compensar alguns distúrbios da personalidade. Isso tudo nos levaria
de volta à primeira infância, pela qual todos passamos, e se esta passagem se
dá através de sistemas autoritários e com culpabilidade, pode se tornar uma
verdadeira fábrica de maníacos da ordem. Portanto, aqueles indivíduos que ficam
histéricos quando a casa não brilha como um espelho, devem saber que estão
simplesmente respondendo às antigas ordens de manter-se limpos. Desta maneira, quem poderia se orgulhar de
qualidades que são simplesmente o reverso da repressão do inconsciente?
É importante lembrar que pessoas
organizadas nem sempre são inofensivas. Um conhecido assassino de mulheres
anotava cuidadosamente numa agenda o nome de suas vítimas ao lado das despesas
de deslocamentos necessários para chegar ao local do crime. Isso sem falarmos
dos apavorantes exemplos em nossa
história recente, com a tremenda eficiência
da ordem apresentada a partir de depoimentos que relatam uma perfeita
organização dos responsáveis pelos campos de extermínio nazistas, para obter
maior "rendimento" possível das câmaras de gás e dos fornos
crematórios.
Também muito discutível é outro
tipo de ordem: a ordem social imposta pela força, pela violência. Às vezes a
sociedade assume comportamento patológico, não diferente daquele dos maníacos
da ordem. Pretende que tudo, não apenas as coisas mas também as idéias e as pessoas
tenham um lugar rigorosamente marcado e que dali não se movam. É bem verdade
que pessoas muito rígidas são as mais propensas a certos tipos de psicoses,
justamente pelo fato de se afastarem pouco ou quase nada do que organizaram
anteriormente. É assim que nascem as segregações raciais e as diversas
discriminações, os privilégios, os bairros residenciais de etnias, os
"guetos", etc. E a grande desculpa para tal: "É preciso manter a
ordem", dizem as autoridades públicas. Mas podemos perguntar, será que essa
não é quase sempre a fonte de arbitrariedades e de injustiças? Tantas
injustiças com as quais nos deparamos diariamente, e talvez justamente por isso
já não nos importamos com elas. Discriminações, segregações, tudo em nome da
ordem que deve, a todo custo, vigorar. Mas há o outro lado da moeda: será que
as pessoas que tem tendência a ser organizadas devem desconfiar desta sua
propensão pelos simples fato de existirem alguns reversos negativos? Desejar
ver uma cama perfeitamente arrumada significa talvez cultivar discutíveis
tendências repressivas e reacionárias? E, ao contrário, o fato de viver o
dia-a-dia sem programas determinados, comporta automaticamente sentir-se
irresistivelmente atraído a cada impulso revolucionário?
Bastante comum é a existência de pessoas
que vivem uma vida pessoal incoerente e desorganizada, mas que no plano das
idéias se revelam pessoas organizadas, quase fanáticas. Há também os genuínos
cultivadores de idéias avançadas que levam uma vida pessoal desorganizada, e
essa atitude identifica-se com a recusa da ordem constituída. É lógico que isso
não é regra: existem muitos exemplos de pessoas muito organizadas em todos os
setores da vida.
Num casal, onde um é organizado e
o outro desorganizado, essa "incompatibilidade" gera conflitos, além
do que se possa imaginar. Viver na confusão quando se ama a ordem é um grande
desafio. Forçar o outro a ser muito organizado, significa perturbar sua relação
com as coisas, significa reprimi-lo dentro de um território que é seu, e não
dos outros.
Normalmente, na estrutura
familiar, a mulher tem sido colocada como a representante maníaca da ordem: por
que será? Evidentemente porque a casa costuma ser o seu domínio, ali ela costuma
deter a maior parte das decisões, e o que os demais que residem ali podem
fazer? Submeter-se ou se revoltar contra tal posição. O mais interessante,
seria que cada um da família possa ter seu "território" a fim de que
organize ou desorganize um cantinho a seu gosto. É uma ótima solução para se
"fechar a porta", quando se quer, sobre a desorganização do outro. Uma
coisa se apresenta bem clara, organização ou desorganização contrariadas tendem
a dificultar uma convivência em comum, e para que isto seja tolerável, em
nenhum dos casos deve-se impor mais do que é possível suportar.
E aí nos deparamos com a fatídica
pergunta: Será que é melhor ser organizado ou desorganizado? Por inúmeras
vezes, ouviremos alguém afirmar: Os desorganizados são mais livres, menos
tiranos e, por sua vez, menos escravos de regras rígidas, já a ordem, por sua
vez, nos torna um pouco prisioneiros. O indivíduo organizado, geralmente não
gosta nem do inesperado nem da improvisação. Se alguém aparecer na casa deste
sem aviso prévio, a acolhida tenderá a ser desagradável, já o desorganizado, que só para começar costuma
estar desligado em relação às horas, será muito mais disponível para qualquer
acontecimento inesperado.
Todavia, essa considerada liberdade,
frequentemente causa prejuízos aos outros e a comunidade. Peguemos um simples
exemplo em uma grande família: quando uma coisa ou objeto pertence a todos,
deve-se coloca-la no lugar convencionado.
Todos devem encontrar a pasta de dentes no lugar mais adequado, ou seja, o
banheiro, e não em outros lugares quaisquer da casa. Se algo simples assim já
traria confusão aos componentes desta família, imagine numa estrutura social ainda maior e mais
complexa.
Cada sociedade precisa de um
mínimo de convenções comuns sem as quais não se pode viver. O que se deveria
pensar de uma sociedade onde os trens não partem no horário, ou onde não
teríamos hora pré-estabelecida para o início das aulas? Quanto a famosa criatividade
da desorganização, ela pode existir nos trabalhos que requerem liberdade de
imaginação. Entretanto, quando precisamos administrar a vida do dia-a-dia, o
que é mais eficaz, a organização ou a desorganização? É sabido que tendo alguma
programação dos seus dias, pode-se encontrar tempo para quase tudo. Isto é
válido para dos donos de casa, seus empregados, os profissionais de qualquer
categoria ou qualquer pessoa que tenha uma atividade social.
Qualquer um deveria ser livre de
viver segundo a própria natureza, desde que o resultado organizado ou
desorganizado de sua forma de ser e agir esteja dentro daquilo que a comunidade
está disposta a suportar. Em síntese, cada um deveria procurar agir com respeito
em relação aos outros, sejam eles organizados ou desorganizados.
Psicologia Clínica
Cruzeiro
Contato: (31) 984093040
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